segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O estigma do sujeito

O ser inserido no global curso do desenrolar das coisas esta morto, sua identidade é massacrada por aquela filosofia prática dos novos cristãos. A individualidade como mito, impõem-se como dogma, estilizando o perfil social para uma identidade unitária. A coletividade impera sobre a ordem do individuo, o universal engloba o particular, o respeito a individualidade torna-se invasão, apropriação da grande industria. Todas as coisas são equiparadas, mensuradas, a individualidade colocada sobre princípios de dignidade humana. A experiência particular, incentivada pelo imperativo do universal, destrói qualquer identidade original, os princípios, os dogmas, a objetivação corrói a originalidade, a autonomia do ser. O padrão da cultura moderna não enxerga nada fora de seus princípios, de sua estilização. A experiência humana, desapercebida de si, irracionalmente irrefletida, ou simplesmente racionalizada segundo os princípios e dogmas da grande industria, objetiva-se nas categorias impostas, centra-se nos sonhos e desejos já repetidos. O grande ideal de formar uma família, de adquirir a casa própria, de ser respeitado pelos colegas de trabalho, de conquistar poder e dinheiro afim de realizar todos os sonhos produzidos pelo idílico ideal burguês, torna os homens simples objetos mistificados pela cultura como sujeitos de direito. O mito, resplandece como o único sol que guiara os homens à cura de todos os males. A ciência surge como a técnica objetiva irracionalmente produzida segundo as necessidades de ampliação de uma estrutura social inconsciente de si. A destruição de florestas, de formas de vida, da própria humanidade, sobrepõe-se sobre os princípios individuais do homem, o universal sempre engloba o particular, invertendo a linguagem oficial a práxis burguesa sacrifica o homem comum em nome da coletividade domada pela força.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Arte sem arte


"Estampado na camisa de um fulano é aquele rock que se vende, aquele que o mesmo fulano compra e reinventa a mesma coisa com o mesmo padrão mas com uma "alma diferente”. Naquele tudo que cada nota diferente já copia a mesma coisa de antes, e aqueles críticos que recriam-no de “forma diversa”, unicamente para tornarem aquele mesmo um rótulo diferente."


Qual a verdadeira essência da música de acordo com os nossos valores artificiais modelados por uma cultura de troca? Para a moderna crítica de arte musical talvez o questionamento se resuma a um certo tipo de reconhecimento do público consumidor, “música boa é aquela que tem mercado consumidor”, o oposto da equação seria o insucesso, seria o “fracasso”. De acordo com o padrão a música deve ser objeto de venda, deve se alinhar ao mesmo mercado que tem a pretensa e pedante ambição de acolher em sua natureza cambiável todas as manifestações humanas sejam elas quaisquer que forem. Portanto o conceito de musica (de acordo com os padrões dos críticos musicais modernos) esta embutido numa lógica que preceitua o valor como algo anterior a própria música, a música em si deve ser preceituada de acordo com os esquemas de público, buscando sempre um mercado musical pouco explorado, ou então entrando na mesma linha de sucesso da "moda", imitando cretinamente os pioneiros de uma onda juvenil qualquer.

Música vira meio de vida, e a massificação da arte musical é um “mercado promissor” , o gerenciamento da arte musical enquadrou-se nos esquemas e prioridades empresariais, a própria arte musical se prende aos imperativos do valor, a busca de algo barato, de fácil digestão, pouco sugestivo, pouco contestador, sem nenhuma paixão ou desejo de mudança, simplesmente uma arte que imita a vida de forma alienada, ajustando-se a própria lógica do valor. Um objeto de consumo que não interfira na lógica do valor, que não dissocie e que se enquadre neste padrão que forma o próprio conceito de arte musical. Hoje em dia qualquer crítico, seja musical ou esportivo, estabelece de antemão as prioridades da coisa em si como reféns da estrutura do valor. Não existe um mundo imune aos esquemas empresariais modernos para a crítica moderna da arte, e a música torna-se para estes mais uma mercadoria posta ao consumo dos sujeitos de direito da modernidade capitalista.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Cliché

E vem o sol apontando no horizonte com seus raios iluminando todos os cantos, clareando o dia e dando a natureza todo o vigor da vida. Acordam os primeiros corpos, preguiçosos lutam contra a fadiga que os chama para o descanso. A preguiça é a grande inimiga que assola as conquistas dos homens, ela arrebata os espíritos fortes, arruína toda força de vontade e se espalha como um vírus. Vitimas da naturalização da vida, prisioneiros da liberdade, repetem os dias e as noites, os feriados, os finais de semana, os aniversários e datas comemorativas, repetem todos os signos e mitos sociais. O louvor à liberdade se faz num mundo invertido, de cabeça para baixo, liberdade é prisão. As grades que cercam as propriedades refletem a limitação do sujeito. Direito de posse, alienação, de ir e vir, limitados por consenso, por previa determinação legal. Aparências, desfigurados, partidos, fragmentados. A lei se impõe em tudo, até neste simples texto, a gramática é a orientação jurídica do escritor, sua liberdade é refém da arbitrariedade de poucos. Conhecimento é poder, e o conhecimento nos é dado, é democrático, é amplo, vasto, é dos homens de direito. A popularização do conceito naturaliza o artificial. A artificialidade da vida faz parte da mesma, e o aniquilamento do sujeito é parte de uma lei bestial de desenvolvimento de coisas.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

A IGUALDADE NO CULTO



O culto no capitalismo


A miserabilidade humana é dissimulada por uma passagem inócua num texto quase religioso, conclamando para uma pretensa realidade, os santificados juristas – cúmplices da tragédia reinventam o real com uma verborragia pretensiosa. A dissimulação da realidade com as “fantasias da imaginação” permanece arraigada numa cultura do “esclarecimento”, essa, despojada de qualquer significado coerente apenas “filosofa” a realidade sem a pretensão de revelar qualquer sentido da essência das relações que se apresentam à sua frente. Com uma capacidade incrível de abstração, eles apresentam teses salvadoras e apocalípticas sem nunca tocar no projeto anti-histórico da burguesia.


Um abismo transpassa entre as pessoas, este abismo não revela, apenas dissimula o conteúdo com uma expansão de objetos hipnóticos e sedutores, os sonhos e as fantasias agregam para a “comunhão dos desagregados”. A religiosidade e a efervescência dos projetos capitalistas cultuam a forma mercantil, o abismo entre os homens é resultado da descrença da “palavra divina”, os miseráveis e os famintos “pagam o preço” pela sua falta de “fé”, a prosperidade e o sucesso são aclamados como “honra a palavra”, “honra a fé”, “honra a sua onipotência”. Neste sentido, o mercado e o dinheiro são as “entidades divinas”, detentores de todos os males e honrarias, a ditadura do dinheiro comandará o caminho dos homens, suas glorias e suas misérias serão resultados da ação da “mão de deus” (mercado). Assim, segundo BENJAMIN, apud LÖWY,

É preciso ver no capitalismo uma religião [...] Demonstrar a estrutura religiosa do capitalismo -isto é, demonstrar que ele é não somente uma formação condicionada pela religião, como pensa Weber, mas um fenômeno essencialmente religioso- nos levaria ainda hoje pelos meandros de uma polêmica universal desmedida. (2005, p.01)

A discrepância no discurso é estranhamente aceita, a desconexão entre os fatos e a linguagem não é absorvida pela “comunhão social”, pela “coletividade”. O conteúdo não toca na forma jurídica, apenas protege a essência tal como ela se apresenta. Não existe qualquer sentido em desmistificar a realidade histórica do fenômeno, e sim uma preocupação em recuperar o desvio. Os desvios são religiosamente tratados, como uma recuperação à “influencia do demônio”. Os “pastores da modernidade” burguesa agem dentro de indústrias, dentro de escritórios de advocacia, na televisão, em anúncios de mercadorias, na educação, etc., todos eles querem trazer o indivíduo para a palavra religiosa do capitalismo, para o culto, para a onipotência e onipresença do dinheiro. O capital é religiosamente uma presença nas vidas. Rendemo-nos aos seus caprichos e a sua vontade. A famigerada lei é o prelúdio de sua existência, é a “palavra de deus”, a conquista do poder político e econômico de uma forma social totalitária e que tende ao absoluto.
Os preceitos protegidos não revelam a essência de uma relação social mediada pelo capital. Os objetos “sociais” são apenas resultados de um processo histórico que se efetua com a constante divisão do trabalho, “rupturas do “fazer”. Esta ruptura do fazer, do ser coletivo em dois, origina as desigualdades e discrepâncias do real, da essência. Os dois homens burgueses surgidos com a ruptura precisam um do outro para existir desigualmente. A necessidade de um é preenchida pela benevolência do outro. Ambos se atraem. São pólos positivos e negativos. Um tem o poder de negação, de revolução, de destruição de uma realidade totalitária e amarga, o outro se apega aos ganhos e ao seu poder, “poder sobre-o-fazer”, ou seja, poder sobre o poder-fazer. (HOLLOWAY, 2003, p.35-70)


Cada um cultua a ordem da cultura do capital. A cultura do capital não diz nada além de si mesma, é o reflexo da realidade mercantil. Segundo DEBORD, é o projeto de um mundo dominado por imagens, onde a mercadoria não diz nada além de si mesma, não revela o seu sentido social, a sua coerência produtiva, ela apenas se sobrepõe aos homens, se cultua lá de cima como poder absoluto sobre a forma social (2003).


A igualdade jurídica é apenas um conceito sem essência, sem realidade concreta, é apenas um idealismo barato de doutrinadores jurídicos e de economistas “preocupados” com as discrepâncias. Suas formulações teóricas pasmam-se pela dificuldade de raciocínio, pela falta de logicismo, pela complexidade. Para o liberal, o Estado é infame, mas o capitalismo não sobrevive sem o Estado, os trilhões desembolsados pelo mesmo para combater a atual crise desmistificam isso. O discurso eloqüente dos “pastores modernos”, inflamado, de um idealismo infantil e irracional apenas cultua o capital, a forma dinheiro e todos os seus entes absurdamente fetichizados. O fetiche, ou “o culto”, como diria Walter Benjamin, é uma característica inerente ao processo capitalista.


Primeiramente, o capitalismo é uma religião puramente cultual, talvez a mais extremamente cultual que já existiu. Nada nele tem significado que não esteja em relação imediata com o culto, ele não tem dogma específico nem teologia. O utilitarismo ganha desse ponto de vista, sua coloração religiosa. (BENJAMIN apud LÖWY, 2005, p. 1)


O capitalismo exige a participação de todos para adorar a “palavra”, para expandir o processo, ou a “palavra de deus”, a reprodução da vida cotidiana, a compra e venda de mercadorias, a produção e circulação de mercadorias, as operações financeiras, a burocracia estatal e empresarial, as manifestações políticas, etc., cultuam o fetichismo da mercadoria, a “adoração dos deuses burgueses”. O capitalismo reinventa formas de adoração e veneração de sua própria lógica. O paraíso e o inferno residem junto, lado a lado. A adoração ao culto e o pragmatismo do capitalismo são suas características básicas. A burguesia só consegue conceber a “pratica”, o “resultado” como sendo responsáveis pela construção do mundo, isto é, a lucratividade representa a perfeição do culto, o homem temente a “palavra” apresenta resultados, mostra seu sucesso ao mundo, glorificando a forma mercantil em sua vida privada.


O pensamento que não positiva a ordem do culto é detestado pelos adoradores da palavra divina mercantil, a desconstrução, a negatividade, a luta anticapitalista, antifetichista, não é culto, não é adoração. A descrença desta “fé” racionalizada pelo culto da produção e da circulação de mercadorias não pode ser “questionada”, ela tende a totalidade, é universal. Os objetos do espírito universal dos homens são intermediados pelo Estado, pela lei, pelo mercado, pelo curso do dinheiro, etc., a “congregação dos iguais” presta sacrifícios em nome dos deuses “racionalizados” da forma de produção moderna e burguesa. A “adoração”, as homenagens aos deuses do mercado, a repetição constante do “mito” em atividades simbólicas reproduz a história do próprio mito, apesar do caráter “ciência” estar impregnado sob o nosso viés mental. A fetichização dos entes burgueses, a adoração de “imagens e coisas” se assemelha muito ao passado remoto de nossos antepassados que para relacionarem-se com a natureza e com outras tribos utilizavam-se de “objetos”, de “totens”. O objeto fetichizado representa o poder sobre os homens, sobre a coletividade, sobre o saber e sobre o fazer destes homens coletivos.


O capitalismo, e mais precisamente o poder do “capital” redecora as relações entre os homens, “coisifica”, “objetiva”, torna uma simples relação entre dois sujeitos uma relação intermediada pela troca de “significados”. Os produtos do trabalho se erguem como signos, os homens procuram-se pela necessidade de trocar seus “significados”, seus produtos, seus trabalhos, suas propriedades privadas por outras “significações específicas”. A relação, portanto, não é mediada pela razão, mas pela troca, orientada pelo culto ao mercado, pela adoração a palavra mercantil. A associação produtiva tem um viés psicológico cultual, através de seus atos mais simples e ínfimos cultua a ordem do dinheiro, teme a voracidade de seu deus (mercado) e, para demonstrar respeito a sua presença jura fidelidade e amor ao seu “poder absoluto”.


O pragmatismo burguês não transcende a forma que dita o seu culto. O culto venerado pelas instituições religiosas do capital não transcende a materialidade concreta das intermediações capitalistas. O pragmatismo é inerente à adoração ao dinheiro. O dinheiro como imperativo do culto burguês necessita de toda a ação pratica dos homens, necessita de todo o esforço físico e mental para a congregação de seu “espírito universal”. O capitalismo é essencialmente pragmático, é expressamente reinventado e repetido através das pequenas ações dos homens, sejam elas práticas ou teóricas. A simples compra e venda de uma mercadoria já cultua a reprodução do capital em si mesmo. Ele é sempre revivido e reinventado, adorado, e venerado.
O caráter fundamentalmente tautológico do espetáculo decorre do simples fato dos seus meios serem ao mesmo tempo a sua finalidade. Ele é o sol que não tem poente no império da passividade moderna. Recobre toda a superfície do mundo e banha-se indefinidamente na sua própria glória. (DEBORD, 2003, tese 13)


A afirmação de Debord reproduz fielmente o pensamento capitalista. A representação das formas capitalistas não encontra fim que não se esgote em si mesmo. É infinita e irracional. Não mede suas consequências lógicas e naturais. É “o império da passividade moderna”, a reprodução constante da produção burguesa, ininterrupta e totalitária, desmedida e essencialmente cultual; a culpa permanece presente entre os homens, o medo de ser castigado pela intervenção divina amedronta os homens a temer a ação prática de sua palavra ditatorial (mão do mercado). Os homens devem louvar seus imperativos e seus mandamentos, devem juras de amor ao curso do capital. Os mandamentos jurídicos burgueses ovacionam a forma divina do capitalismo, o triunfo da “verdade” e da razão está intimamente ligado à lógica do esclarecimento burguês. O pensamento “iluminado” irá guiar o caminho dos homens em face da perdição do inferno de uma vida sem capital.


A filosofia, enquanto poder do pensamento separado, e pensamento do poder separado, nunca pode por si própria superar a teologia. O espetáculo é a reconstrução material da ilusão religiosa. A técnica espetacular não dissipou as nuvens religiosas onde os homens tinham colocado os seus próprios poderes desligados de si: ela ligou-os somente a uma base terrestre. Assim, é a mais terrestre das vidas que se toma opaca e irrespirável. Ela já não re-envia para o céu, mas alberga em si a sua recusa absoluta, o seu falacioso paraíso. O espetáculo é a realização técnica do exílio dos poderes humanos num além; a cisão acabada no interior do homem. (DEBORD, 2003, tese 20)


Essencialmente teológico, e essencialmente cultual, o capital representa somente a si mesmo. O homem é nada sem ele, sem a temeridade de sua palavra. A devoção do espírito deve ser constante, deve ser religiosamente tratada. O espírito se submete ao ordenamento divino.
A perdição dos homens, a miséria, a fatalidade de assistirmos a subnutridos comendo seus semelhantes por não terem o que comer, reforça o culto. “Organização dos salvadores das contradições” se espalham pelo mundo, cultuando o capital, mas em nome dos homens, em nome de “deus”. Este deus sem face, sem ser a imagem e semelhança do homem é mais forte de que qualquer deus jamais criado pelo homem. Seu poder transformador, seu poder criador pode realizar a mais maravilhosa das construções e criações que o mundo já viu. A linha tênue entre barbárie e civilização é quase imperceptível. Por ora se confundem. São projetos do mesmo deus. Os bárbaros comem a si mesmos. Devoram-se pela “falta de deus”. A perdição e a ruína são seus resultados bárbaros. Os bem-aventurados e os afortunados pelo pragmatismo aproveitam e gozam de uma vida repleta de fartura pela religiosidade latente de sua “comunidade”. Os não pragmáticos, os seres viventes que não adoram a palavra pagam com o sofrimento da carne. A fatalidade pode ser curada pela ação do capital (deus). Ele representa tudo o que os homens “podem fazer”.


Os Estados atrasados através de seus chefes e representantes em reuniões religiosas com os “pastores eclesiásticos” de outras comunidades, congregam nesta alta cúpula decisões que vão interferir na ação direta dos homens. A crise seria o apocalipse bíblico, é a doença do curso da normalidade burguesa. A crise do culto precisa ser extirpada da realidade pragmática burguesa, a desordem e a falta de consumo precisam ser revertidas para reacendermos o pragmatismo do consumo divino. A desordem é fruto da própria separação da produção, pela ruptura deste fazer. O produtor, ou o trabalhador é dividido de seu fazer, seu fazer é alienado, é de outro, é do capitalista. Seu fazer é cindido, é partido, é fragmentado. A crise é fruto da cisão do fazer. A ruptura do fazer rompe o elo que liga os homens, apesar do caráter coletivo da produção, estes homens produtivos (trabalhadores) estão cindidos, estão partidos do que fazem. O seu fazer é alienado, é fazer comprado, é um fazer mercadoria. “Eis porque o espectador não se sente em casa em parte alguma, porque o espetáculo está em toda a parte.” (DEBORD, 2003, tese 30)


O fruto do seu trabalho não é consumido por ele. Seu trabalho, seu suor e sua dedicação são de outros, são destinados ao mercado. O capitalista controla a existência do trabalhador, não por uma simples ocorrência, mas sim por uma justificação religiosa, por uma moralidade religiosa que resgata os valores burgueses de culto. A religiosidade entrelaça os homens na ignorância, na fatalidade. A injustiça é explicada segundo o conceito dos vencedores. Para os perdedores do processo só lhes cabe obediência e temeridade a “mão divina”. A preocupação aos objetos burgueses é maior que o próprio descaso à vida e a miséria. A palavra estende-se, agiganta-se, potencializa-se. A ordem do culto de aperfeiçoa em várias funções e ações separadas, mas que se agregam para a totalidade do culto capitalista. O culto oblitera o pensamento e a consciência de si. Renuncia o indivíduo em nome da coletividade, mas contraditoriamente inverte o sentido de si mesma renunciando o coletivo em nome do indivíduo detentor de capital. A forma é a inversão da essência, é a realidade transfigurada pela rendição ao culto. O culto agrega desagregando.
Com a separação generalizada do trabalhador daquilo que ele produz perde-se todo ponto de vista unitário sobre a atividade realizada, perde-se toda a comunicação pessoal direta entre os produtores. Na senda do progresso da acumulação dos produtos separados, e da concentração do processo produtivo, a unidade e a comunicação tornam-se atribuições exclusivas da direção do sistema. O êxito do sistema econômico da separação significa a proletarização do mundo. (DEBORD, 2003, tese 26)


O conhecimento do que se faz fica desligado dos produtores, a sociedade do conhecimento é uma falácia, uma mentira. O conhecimento é sempre parcial, fragmentado, desconectado do todo. É em si mesmo parcelar, é um conhecimento que não trará problemas, pois o mesmo é incapaz de refletir sobre si mesmo. O esclarecimento não nos trouxe melhores condições de compreensão do fenômeno produtivo. Existe um constante desligamento do sentido da produção, as escolhas são sempre já feitas, já são previamente decididas e pensadas pelos detentores do capital. A linguagem burguesa não revela o “mito”, ela esconde a essência, a deforma através da aparência. No capitalismo, a linguagem é sempre irreal, ilusória, todos sabem da desconexão social, da cisão dos homens. A mentira da mercadoria não se desmistifica, não é desmascarada. O homem só torna-se especial a partir do momento em que participa do fluxo. Só neste momento ele torna-se sujeito de direito, quando ele faz circular cédulas, quando ele produz e consome mercadorias. O sujeito de direito só é reconhecido e admirado pela forma jurídica enquanto ele participa e presta homenagem ao culto. As eternas garantias constitucionais só se revelam ao sujeito a partir do momento em que ele pratica a sua fé diante do “cenário divino”. O mercado estenderá sua mão ao sujeito de direito que praticar a sua fé, a renuncia de si em nome do objeto fetichizado guiara o homem – agora contemplado pela luz, a “glória de deus”. O homem temente a “deus” “renuncia a si”, renuncia aos seus caprichos, só será contemplado pela “glória” se prestar culto ao dinheiro ou “se amar a deus sobre todas as coisas”. O homem destituído de “dinheiro” ou não tendo como “ganhar a vida” é um homem sem “fé”, apegado à repugnância da vadiagem e ao ócio improdutivo. Os desgarrados e os vadios amedrontam os “crentes” ou os tementes da “vontade de deus”. A fúria de deus age contra estes impostores de sua palavra, não existe vida sem a fé ao dinheiro, o capital não pode ser desgarrado do contexto desta sociedade. A mediação dos homens só ocorre através do ordenamento divino, através do dinheiro, este, orienta o caminho, amansa as dificuldades e abre possibilidades. “Só “ele” salva!”
Neste sentido, "O capitalismo é a celebração de um culto "sem trégua e sem piedade". Não há "dias comuns", nenhum dia que não seja de festa, no sentido terrível da utilização da pompa sagrada, da extrema tensão que habita o adorador.” (BENJAMIN apud LÖWY, 2005, p.2)

CONSIDERAÇÕES FINAIS


O culto ao capital é eterno, sem freios e sem saídas. Não existe saída para os homens, não existe forma de viver sem estar submetido às ordens de deus. Ele é onipresente, esta sempre aqui, ordenando-nos e intimando-nos para a produção e para a mais produção de seu nome. O capital só reconhece a si mesmo. Nenhum deus reconhece nada além de si, a renuncia a deus será amaldiçoada pela intervenção divina que nunca tarda em ocorrer. Deus saberá ser perverso contra aqueles que não prestarem culto ao seu nome, o homem que não for fiel a sua palavra divina queimará no fogo do inferno ou das privações da vida burguesa. Assim como deus, o mercado ou o dinheiro não precisam de explicações, são seres que por si só se “explicam”. A plausividade das formulações teóricas sempre concebeu que estes “seres” estão por aqui “simplesmente por consenso”, isto é, os sujeitos que aqui habitam sabem desde sempre da existência de tais “seres”. Os valores e os princípios democráticos erguidos pela conquista do poder político burguês “explicam” o fenômeno sempre partindo do ponto final. O fato explica-se por si, não importando nunca a construção do fenômeno histórico. É como o estudo da criminologia. É sempre parcial. A criminologia acertadamente bate no ponto. Os motivos do crime estão cunhados com a moeda certa, só que para estes pensadores as raízes do mal não “aparecem”. O fenômeno “crime” está ligado às desigualdades sociais, o criminoso só aparece quando ele está privado de algo, ou quando ele não tem o acesso aos bens culturais de uma dada sociedade. O aumento das penas, portanto, não vai revelar a essência das relações desiguais entre os homens, apenas vai esconder o lado sujo desta sociedade burguesa. Acontece que a criminologia para por aqui, ela acaba se desligando de um projeto realmente revolucionário por fazer parte do pensamento dominante da própria sociologia. Este saber burguês revela as contradições reais , mas não de modo a revelar a essência da sociedade civil. A contradição somente pode ser amenizada através de políticas públicas que recuperam, isto é, o capitalismo só presta culto a si mesmo. Não existe a auto-reflexão de sua incapacidade de intermediar as relações sociais humanas. O pensamento dominante e liberal enxerga apenas as amarras do mercado como o sentido da presença humana terrena. O homem surge para prestar homenagem ao culto mercantil, nada mais importa aos seres que aqui habitam apenas deveres e obrigações ao culto capitalista e ao ordenamento do capital.


O trilho do capital esta descarrilado, ele esta num curso sem estrada, não existe um fim plausível e coerente. O culto em crise representa toda a falha do projeto divino. A reprodução da lógica mercantil corta suas bases de exploração, cientificou a produção a ponto de desmerecer o proletário. Um mundo de abundante produção e pouco consumo, de muitas ciências produtivas e de muitos saberes burgueses, todos eles separados do real, distantes do homem comum. A sociedade vive em eterna separação, distingue e desigualmente divide a produção dos bens. A lógica da divisão se constrói através do acúmulo de capital, este orientará o consumo e a produção. A necessidade do homem, os seus amores e os seus discursos serão sempre reféns da brutalidade do dinheiro. A adoração ao capital permanece em culto, a religiosidade de nossas relações sociais é sempre revitalizada e reativada através de novas descargas elétricas. A carne paga o preço da privação. O homem comum desligado da consciência do seu tempo cultua o seu deus e embrutece o seu próprio espírito. A lei é apenas a reprodução da vida cotidiana, é o embrutecimento da razão e da consciência histórica, é incapaz de revelar a essência das relações que se apresentam diante de si. O capital divide os homens e os une para apenas ostentarem o seu poder. Nunca poderemos falar em igualdade se permanecermos ligados a uma estrutura social que sempre desiguala. É inconcebível! Não existe proposta razoável no capitalismo, sempre estaremos reféns do capital, sempre estaremos presos a uma estrutura social que limita a liberdade e a igualdade. A plenitude da vida não se realiza no capitalismo. É um sistema que limita o gozo, a satisfação, a felicidade. O deus capital não encontra limites, e não encontra barreiras, age livre, e ironicamente, nós o criamos.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Da agonia ao suspiro confortante

Ambiente virtual

O ego infante, de sujeitos individualizados pelo processo produtivo, conclama para um espaço: o ambiente virtual. O sujeito, individualizado, caracterizado por um grupo de consumo qualquer, constrói “seu mundo”, “independente”, “mágico”. Lá no “seu” mundo os sonhos e as desilusões são apagadas do real contexto, do vivido, do concreto, suas manchas e degradações são substituídas pelo auto elogio e pela dissimulação daquilo que ele é, e daquilo que realmente foi vivido. Em seu ambiente virtual, a imitação e a competição banal por elogios e imagens domina o meio, o sujeito, o individuo, recalcando suas desilusões, sente-se ameaçado pela concorrência “inimiga”, as imagens, as frases, os vídeos, os amigos, os depoimentos, lhe imputam uma espécie de reconhecimento, de carisma, de felicidade; sua vida se torna “colorida” com as frases dissimuladas de outro sujeito, trocando frases como se trocam mercadorias, os sujeitos virtuais, barganham um elogio por um outro elogio; as frases poéticas, as filosofias de vida, os estilos característicos, a moda, o popular, o alternativo, etc dissimula a realidade, inverte o sentido do real e concreto, diante disso, os internautas, depositam suas melhores virtudes no espaço irreal, no espaço “mentiroso”, o domínio de imagens sobre o concreto é totalmente perfeito na internet. A visão torna-se o único sentido apropriado no cenário virtual.

A síndrome de celebridade

O orkut é uma espécie de síndrome de celebridade, o sujeito no afã da mediocridade consegue ser mais do que mais um, e “lá” ele “pode” ser o que ele quiser, mentindo sobre seus reais valores ou revelando a sua identidade secreta. O espaço virtual reforça a identidade que a forma produtiva constrói incessantemente, o “sujeito”, o “individuo”; o ápice do momento virtual é a construção deste, e mais, a apropriação privada de suas fotos e frases denota o movimento “perfeito” da forma mercadoria. A vida imita o real e o “dissimulado” (virtual). Se a mentira domina todas as esferas do concreto, imaginem o virtual? Se as promessas fantasiosas e os devaneios daqueles que promovem as mercadorias necessárias para os consumidores não passam de “mentiras”, o que dizer do auto elogio? É de enjoar! A ficção dominou a realidade das pessoas, preferem viver numa espécie de fantasia, se abstendo da compreensão e da reflexão das coisas que realmente importam, elas depositam suas esperanças e fantasias na construção de um “eu virtual”. A ideologia burguesa ovaciona os projetos científicos e tecnológicos que estruturam a sua forma, e a classe dos espoliados, alienados e incapacitados de compreender a sua própria existência, adquirem e consomem todos os projetos sem hesitar. Assim como já disse Debord, “A exterioridade do espetáculo em relação ao homem que age aparece nisto, os seus próprios gestos já não são seus, mas de um outro que lhes apresenta”. O homem que age, que trabalha cinco ou seis dias numa semana, tendo dois empregos, família, preocupações de produtividade, ou recalques amorosos, precisa adquirir um método alternativo, uma forma para não surtar em desespero. Suas escolhas não são suas, são propostas de outros, os detentores do processo produtivo, isto é, a classe burguesa ou o empresariado. Esta industria do prazer, “livre” das obrigações do trabalho, é ela própria obrigação do sujeito que age. O “espetáculo”, como dizia Debord, tem suas próprias saídas e métodos para dizimar as insatisfações; ele lhe adoece e lhe cura, lhe mata e lhe ressuscita, é o refluxo insípido da realidade naturalmente forçada por esta “ciência da dominação”.



O refúgio

Os internautas, cansados das obrigações produtivas e da perseguição do chefe, encontram o refugio para as suas lamúrias. A virtualidade encontra-se perfeitamente com os desejos mesquinhos e egoísticos dos sujeitos isolados. O narcisismo virtual domina a rede, a promoção pessoal e a exibição de imagens concorrem entre si, e a bizarrice não tem fim; existindo ainda uma competição por emoções: felicidade, tristeza, racionalidade, etc. a realidade transfigurada neste mundinho virtual é “confortante e apaziguadora”, é o suspiro da “criatura abominável”, seu “castelo encantado”. A fantasia acaba por dominar a própria realidade, invertendo as coisas. O uso continuo de aparatos tecnológicos (computadores, etc) desliga o elo que ligava as pessoas nos momentos de folga do trabalho. A tecnologia, ao contrario do que disse Bill Gates, separa as pessoas, os momentos de prazer estão cada vez mais individualizados e distintos, separados para cada “individuo”. As formas de sociabilização neste espaço virtual não configuram necessariamente em comunhão, ou no caso do orkut, de uma “comunidade”, pelo contrario, as pessoas se separam cada vez mais e vivem cada vez mais este ambiente dissimulado, esquecendo da realidade e da verdadeira comunhão com as pessoas. Quantas pessoas deixaram de sair em grupos para se divertir, preferindo ficar em suas casas sentados na frente de um computador? Milhares, centenas. A diversão e a felicidade estão encontrando a sua sintonia em objetos, a alegria é encontrar a mercadoria perfeita no “mercado livre”, ou fuçar as fotos de pessoas na internet, ou simplesmente não fazer mais sexo, preferindo o prazer solitário da masturbação. De fato, a tecnologia é ambígua, tanto pode como não pode ser, mas a sua forma é em si especifica para o sujeito isolado, que sentindo-se o oposto do outro que esta ao seu lado, só se refaz consumindo-a “infinitamente”.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Minha doce loucura de amar

Se desenvolvermos um texto motivado pelas emoções recentes seremos cruéis (ou não) em nossas palavras, a maldade estará impregnada e o leitor se sentirá desmotivado com a leitura. A tempos deixo a bondade cristã invadir meus sagrados conceitos nada cristãos, o simples perdão faz parte do vocabulário de um ateu nada convicto. A convicção é algo que incomoda o autor do texto, pois ele não sabe o que quer, é um sujeito indeciso e que se apega a realidade diante da qual ele conhece e sabe lidar. O medo do desconhecido cria um mundo aonde as suas fantasias eróticas seriam todas castradas e colocadas num plano inferior, o plano da fidelidade cristã do relacionamento sério. O plano superior, de acordo com o estipulado na sociedade cristã, é o plano do casamento, da monogamia, da fidelidade do amor, do compromisso com o outro e a auto castração, o reprimir o próprio desejo em nome de um amor que não “completa”, mas aniquila a própria consciência e o próprio desejo que advém da consciência reprimida.

Estar no convívio e não aceitar as regras impostas pelo saudável modo operacional cristão de relacionamento, é como ser um cidadão e não comprar. Vincular a felicidade com a completude do relacionamento parece amansar as dificuldades advindas da própria sociabilidade, o sujeito feliz é aquele que persegue todas as conquistas sociais estipuladas pelo modo social cristão. O amor da modernidade cristã burguesa, ou sei lá qual rótulo perseguir, é um amor patológico, que esconde em suas empoeiradas cortinas vermelhas toda uma repressão sexual e afetiva. O sexo é reprimido, à mulher cabe o papel do individuo recatado, amoroso e fiel, ao homem o papel da caça, do trabalho assalariado, do mundo dos negócios. Com as “conquistas” sociais alcançadas pelas mulheres, o papel feminino ganha outros compromissos legais e morais. A mulher aumenta sua responsabilidade: mulher objeto, mulher família, mulher de negócios, etc. ao invés de libertarem-se das garras opressoras da repressão sexual e produtiva, as mulheres se agarraram nas amarras débeis da liberdade burguesa. O simples acesso ao mercado tratou de conter os ânimos emancipatórios, e tratou de domesticar a consciência rebelde em prol do mercado burguês e masculino.

A repressão sexual é conseqüência da repressão econômica e por ela é definida. A sociedade patriarcal, ou seja, a própria sociedade capitalista se ergue num cenário aonde o papel feminino é colocado em segundo plano. O rebaixamento social da mulher, e o papel do ser feminino, é criado na nova consciência social, a propriedade privada cria o individuo feminino, com as características próprias do gênero e da espécie. O natural do fenômeno é normalizado e canonizado pelos conceitos religiosos. A sociedade reprime os desejos sexuais e as perversões, o ser humano moraliza a sua sexualidade, deixa os simples desejos e os prazeres em segunda mão e com isso se torna um ser doentio e carente, necessitado, e com uma imensa necessidade de ser “amado”. O amor não é próprio da espécie humana (ou talvez seja, não sei de nada), os sentimentos que discutimos calorosamente fazem parte do momento histórico aonde os seres humanos reprimem a sua sexualidade em prol da riqueza e do poder. A propriedade privada aniquilou qualquer coletividade, tornou o sujeito perverso num outro sentido. Muitos atos de violência sexual nada mais são do que desejos sexuais reprimidos. A repressão é uma violência ao organismo, ao comportamento; o instinto, a vontade de fazer sexo, de beijar, de dar abraço e dar carinho foi substituída pelo método responsável do relacionamento sério. A seriedade e a burocracia do amar, retiraram a doçura dos momentos a dois (ou a dez).
Infelizmente....
Eduardo A. de Souza

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Pena de morte

Como a tempos descobri que o mundo não é perfeito, constata-se que as piores qualidades humanas são exaltadas e veneradas no contexto da sociedade; o mundo é e sempre foi dos cínicos, se poderemos mudar a realidade social isto ainda permanece obscuro e misterioso. Mas de fato e de antemão podemos mudar uma realidade palpável, um problema social que ataca as nossas mais íntimas convicções e valores, que nada mais é do que a privação da vida por parte de um ‘malfeitor’. A sociedade esta cheio deles, cerceando vidas, reprimindo o existir ou o sobreviver das pessoas que aqui habitam; o malfeitor, como todo vilão, é protegido por certos setores do ‘espetáculo social’, ele age livre neste contexto, sua amabilidade resplandece sobre o signo da razão e da racionalidade, as leis e constituições o protegem e o veneram como o promotor de uma espécie de novo rumo, de um novo paradigma. Este malfeitor é rápido e rasteiro, invadindo lares e privando existências, ele restringe a liberdade dos indivíduos, que então se sentem compelidos a subsistir em pequenos cubículos que mais parecem jaulas. O ‘malfeitor’ da sociedade age livremente e restringe a sua, a minha, a nossa liberdade, impondo valores para condicionar sua existência à apenas cumprir metas sociais.

O império do condicionamento, imposto pelo malfeitor no espetáculo social, é amplo, ele age através de objetos hipnóticos, estes por sinal, criaram toda uma espécie de burocracia jurídica que astutamente protege todo o contexto social iniciado pelo malfeitor. O malfeitor é muito inteligente, a sua principal característica é passar desapercebido diante de nossos olhos; de fato nunca sabemos aonde ele se encontra, seus vestígios habitam em nossos lares, em estantes e geladeiras, em nossas vestimentas e em nossos hábitos de pensar. Os simples ‘cidadãos’ (cadáveres do homem) apenas contemplam o espetáculo criado por estes mesmos homens, e assim que o império do condicionamento assume uma posição primordial reduzem-se as penas mais arbitrarias e radicais. Mas admitindo a minha perversidade, sou absolutamente contra. Pois de fato precisamos de mais penas, e inclusive a pena capital, a pena de morte. Não podemos deixar que charlatões e vigaristas assumam o controle de nossas vidas, não podemos submergir diante da vida! Pena de morte! Pena de morte para aqueles que castigam a vida, para aqueles que não nos deixam alternativas e escolhas que não sejam aquelas arbitradas por eles mesmos! A vida é mais do que trabalho e consumo de banalidades! Se viver é isso, então serei mais radical. Pena de morte para todos! Para todos os seres que se esqueceram dos próprios prazeres, que abdicam da felicidade em nome da produtividade. Mas num mundo que institucionaliza até o lazer fica difícil, é quase uma utopia infantil. O linguajar e a verborréia descrita se esvaem de eficácia e o autor se ilude com a própria vida. A realidade e o império do condicionamento são maiores que os simples sonhos de um indivíduo. Os sonhos acabaram, e o mundo cede espaço as ideologias, ideologias estas que habitam no imaginário do malfeitor, que no seu antro de trabalho produtivo fantasia maneiras de invadir a alcova de seus escravos.

Os escravos modernos, ou os chamados sujeitos de direito, ou também trabalhadores, estão castrados de seu vigor jovial, pois o mundo dominado pelo labor produtivo lhes suprime qualquer traço de singularidade, estampando em suas consciências a auto-repressão somatizando a um apelo exagerado ao individualismo. Que os sujeitos sociais são absolutamente copiosos ninguém tem nada a objetar, trabalhamos meses e meses a finco por uma obrigação de comprar uma geladeira, ou porque não, um televisor de plasma. A obrigação de produzir aniquilou o raciocínio, padronizou e domesticou o próprio, anulando e excluindo de sua 'racionalidade mecanizada' qualquer questionamento que não vise a soma aos valores impostos. O pensar então se submete a orgia da concorrência produtiva, os sujeitos investem em sua própria força de trabalho, em sua própria existência pífia e condicionada. O mercado orienta o pensamento e o modo de vestir, as leis orientam a conduta certa e errada e o sujeito social é apenas um mero ser genérico, com uma pseudo-capacidade de escolha, já que tudo o que nos cerca não advém de uma produção consciente e realmente democrática. Podemos então sintetizar o pensamento numa afirmação. A pena de morte já nos é dada. O trabalho produtivo é a nossa pena de morte, pois ali a vida não se satisfaz. Não nos sentimos plenos com o labor ,com o desgaste mental e físico em uma função rotineira e cansativa. Pelo contrário, o grande barato da vida se encontra nos momentos de fora do trabalho produtivo.

Para tanto os malfeitores não nos deixam saídas, agora eles passaram para o plural. Pois é notório e sabido que eles são muitos, e se escondem atrás de suas criações, e estas, hipnóticas e sedutoras, atraem a vitima para a sua investida mortal. E como pragas que se espalham pelas cidades elas estampam vontades e desejos, todos estes reais, mas que foram condicionados da pior maneira. Pois todos eles são chantageados e negociados no mundo do trabalho produtivo. A morte é certa, ela é lenta, nos adoece, nos aflige pensar que a vida nada mais é do que ordens e obrigações advindas do labor. O chefe controla a minha existência, e eu submisso sou controlado por ele. Eu produzo mas não consumo; perco todos os dias de minha vida oito horas. Vivo não para mim, mas para o outro. A produção é infinita, e o engraçado de tudo isso, ainda tem gente passando fome. Se o mundo triplicou a capacidade de produção como podemos pensar em produtividade? Se a tecnologia da produção alavancou esta mesma produção como ainda podemos ser escravos das oito horas diárias? A resposta é simples, o trabalho produtivo é apenas um nome que sempre significou a mesma coisa. O trabalho vem do latim tripalium, este era um instrumento de tortura utilizado nos escravos. Hoje em dia, os escravos (trabalhadores) adaptaram o trabalho como valor digno do homem; como um valor a ser pleiteado no cassino jurídico.

E como vermes que somos, reduzimos os nossos sentimentos, desejos, prazeres. Adaptamos a vontade interna à submissão externa. O cumprimento do dever vem antes da minha vontade interna. A sovietização serviu de parâmetro para o próprio capitalismo ocidental. O fascismo, o socialismo real, são modelos por ora, muitas vezes adaptados a própria legislação democrática e liberal. Pois no império moderno da burguesia, a adaptação à uma ordem externa e o condicionamento interno, perfazem o mesmo ciclo funesto da modernidade soviética. A critica que vem daqui e que ousa atingir o distante mundo soviético é por si mesmo infundada, pois a sociedade dominada pelo trabalho adquire um ar de semelhança, de continuidade. O mundo controlado pelo modo burguês de produção precisa e almeja cidadãos conscientes de seu papel na sociedade, ou seja, produzir. Pois só assim consumimos e criamos todo o conjunto social que nos reprime. Na atual conjuntura, num mundo dominado pelo trabalho produtivo, a morte é o único momento de liberdade do indivíduo, na morte ele encontra a sua paz, a libertação da matéria, da mesquinharia social e das imposições de consumo. A morte liberta. Não é deus nem o dinheiro que liberta, mas sim a morte. Se somos dominados pelo labor, e a morte é a única forma de ser livre, acabaram-se os problemas filosóficos! Vamos matar a todos! Cadeiras elétricas em massa seriam produzidas e nós sentaríamos nelas e desfrutaríamos o gostinho de sermos livres. Ah doce destino....
Fim das palavras e fim da inspiração....
Morri babando numa cadeira....
Eduardo A. de Souza