24/02/2012

Que grito?

E o grito como havia falado Holloway esmoreceu, abaixou os cornos e se pôs a trabalhar, ou fingir que “trampa”, como dizem alguns “sabidos”. Um sujeito abre a porta e envia o comando, do comando a raiva aparece, mas logo se dissipa pela imposição da cultura da paz que ensina a mansidão como dádiva dos sábios. Ele faz e eles a sua volta também o fazem, alguns nem sabem do que fazem, outros, os entendidos falam por eles. Nessa sequência de cretiniçes eles convivem uns com os outros, uns com raiva, outros com alegria, outros com depressão, alguns poucos se jogam de pontes e outros metem tiros em si mesmos. Assim a vida social se pacifica e se equilibra nesse caos organizado chamado sociedade de classes. Por um breve instante sorriu, viu uma piadinha idiota em seu momento laboral. As horas passam na frente da máquina, sentado numa mesa, olhando para uma tela, acompanhando números e projeções de lucratividade. A matemática é uma espécie de charada, em cada conta um enigma é ou não é decifrado. E eles brigam por metas e objetivos. Como brigam. Ele olha para sua vida e nada vê. Fim de expediente. Ele saí de casa. Amigos o convidam para se divertir num bar. Ele ri, bebe e interage, vai pra casa trepa e goza e dorme. No outro dia repete mais alguma idiotiçe e na segunda trabalha novamente. O mesmo ciclo se repete. Ele se questiona, pensa, não vê sentido nessa sequencia de fatos. Vê a vida passar, e ela passa, e como passa depressa. Pessoas passam por sua vida, nada o cativa, nada o fascina. Os mais incriveis moram a oceanos distantes. Seus idolos falam pelos cotovelos, mas não na terra do samba, na terra da cópia, ou então da colonia. Aqui tudo é trivial e corriqueiro. Diria que banal e tolo. Uma terra sem identidade, os que possuem a identidade morreram a merce da fúria do mercantilismo nascente numa europa decadente. A decadência desde então triunfou em nossa cultura. A paz do cristianismo nos ensinou a fraqueza como uma vontade de potência virada ao contrário do que um certo bigodudo disse. A sujeição e a ignorancia são as armas da racionalidade do mundo do trabalho. Aqui para pensar é preciso ser orientado pelo mercado. A poesia vira arte de mercado, a música, a comida, até para limpar a sua bunda suja você precisa estar sujeito ao esquema de trabalho. Que triste fim. As expressões mais triviais do corpo reféns de uma sistemática estranha. Em função disso eles criaram uma natureza, essa natureza, é a vida de consumo que consome a vida.

22/02/2012

O lazer como lucro

O lazer como ferramenta fria e a serviço da lucratividade abstrata, assim seriam quase todas as motivações humanas dignas do selo de qualidade e seriedade, nada escapa ao dogma triunfante que coloca as melhores marcas em estantes a serviço do consumo e da admiração humana. Assim como disse Debord, “tudo o que aparece é bom”, é preciso também expor a habilidade ou destreza de uma prática qualquer, ou então vender ou revender um produto produzido ao consumo. O lazer tende com isso a se aprisionar ao esse esquematismo, o lúdico se inverte em seu oposto, em um objetivo cego rumo a uma conquista, a um prêmio; o prazer e o gozo se aniquilam e se deterioram em metas diversas, tudo se resume a competividade e aos prêmios. É preciso expor sua mercadoria mesmo que esta esteja em vias de escasses como no caso da música, que a todo instante reinventam formas de dizer o mesmo em versos românticos ocos e entediantes. A poesia dos versos jã não encantam mais os ouvidos doutrinados a ouvir sempre a mesma batida. O músico venerado, o jogador de futebol famoso, ou a escola de samba campeã ensinam que os versos da vida se resumem a obediência da competição capitalista. A arte imita a vida, assim como o lazer que é mais um de seus reféns.

06/02/2012

Enxedores de saco

Eles "enxem" o saco por alguns “trocos”, com esses “trocos” eles compram “trecos”, com os “trecos” ele se sentem humanos e dignos, o ciclo é infinito, morre um, outro segue. Nada derruba a vontade de ter “trocos”. Os "enxedores de saco" assistem as ofertas de compra, se emocionam e sentem atraidos pelo desejo que delas emana. Aquele desejo se espalha, é ensinado por outros "enxedores de saco". Os "enxedores de saco" da maturidade ensinam os mais novos a arte da “enxeção de saco”. O “troco” é o simbolo mágico que guia esses humanos. Tendo o “troco” eu posso, eu sou, eu vou, para sempre serei algo de bom. Se eu não "enxo o saco", eu não tenho como conseguir o “troco”. Eu posso então pegar na força, mas pegando serei enjaulado junto com outros humanos. Como viver então? Só posso existir nesse contexto se eu “enxer o saco” por alguns “trocos”.

26/01/2012

O PRETO no mundo do BRANCO


Ele violou a regra moral do branco, era um “preto” num mundo de brancos racistas. O seu SER estava condenado a permanecer na inferioridade simbólica criada pelo branco superior. Tudo é para os brancos: a pasta de dente, a margarina, o carro, a cerveja, a alegria e a tristeza. Para o preto lhe resta a fome, a violência, a dor, a morte, a guerra, a mutilação e a tortura. A cor preta simboliza o mau, é o simbolo do fracasso, da inferioridade nesse mundo de branco. A moral burguesa, detentora da arte violenta do discurso, tenta domesticar o preconceito racista impondo um modo de ver a vida pela variedade de cores do universo; se esquece no entanto que a riqueza se estabelece quando um vencedor violento rompe o lacre do limite imposto pela linguagem, ou seja, a riqueza provém da exploração do limite do próximo, com ou sem o consentimento desse. A fórmula que denota o fenomeno já foi apresentada por Marx, a mercadoria cria e recria as cadeias e redes de dominação e sujeição dos corpos a infinitude do sistema mercantil, presas em si mesmas, para sempre, sem tréguas e sem descanso. O limite é o minimo razoavel para a existencia pacifica dos sujeitos de direito, mas o processo descamba para o seu inverso, para acumular é preciso romper o limite imposto pela ideologia da liberdade, é preciso invadir o espaço do outro, dominando-o através da força da linguagem. O conhecimento é poder, é violência, é imposição da minha verdade no corpo do outro.   

19/01/2012

E viva o novo de novo

Pela última vez havia atualizado a sua rede social, ele queria atenção, mas ninguém demonstrava nenhuma boa vontade em contemplar as suas predileções. Ele era assíduo em suas atualizações, permanecia o dia todo conectado e antenado com as noticias e os últimos boatos sobre qualquer evento de importância juvenil. Ele era quase nada de si, no entanto, era empurrado rumo a maré de conceitos que ele aprendia diariamente. Ele apenas espalhava a mentira conveniente para os desavisados, crendo que de certa forma estaria compartilhando informações uteis para o bem comum. Cada figura virtual é um universo de especulações sobre a vida, são incertezas virtuais que permeiam essas relações. Desvirtuando sobre si, todos os conectados na grande rede são mônadas que se sujeitam aos imperativos do mundo narcisista; cada um vibra e cultua o seu próprio desejo, necessitam de atenção, necessitam de olhares, estão carentes e isolados, mas cinicamente demonstram o contrario. Uns mais sinceros se privam dessa necessidade banal, outros, os felizes, alienados de qualquer espécie, se contentam em rir e gozar os momentos de lazer da vidinha privada burguesa. Compre o celular, compre a televisão, compre o carro, compre a nova tecnologia de informática, todas essas imposições tapam o subnutrido que reside em um distante país, sobrevivendo a insetos e restos mortais de seus outros companheiros de tribo. O canibalismo ainda vive num mundo democrático, liberal, mas enquanto estivermos respeitando os gays, os negros, as mulheres, todos os fenômenos contraditórios passam como fenômenos inerentes da natureza humana. O aspecto doentio da ideologia torna a razão assunto de letrados idiotas, ou um assunto imanente de uma patologia estruturada no mundo da economia política.

17/01/2012

A morena

Ela tinha um corpo monumental, seu sorriso me arrepiava até a espinha, sua pose e sua presença eram logos notadas assim que ela adentrava em um ambiente qualquer. A sua forma de olhar intimidava. Ela tinha altura, beleza, charme e encanto, sua voz era maravilhosa e bem entonada, e o pior, era simpática ainda por cima. Eu a avistei por muitas vezes em uma fila num restaurante. Ficava atônito olhando para aquele belo corpo, suas curvas, sue pele bronzeada, ela era perfeita, era a luz que faltava nos meus dias de penumbra. Só de avistar aquela beleza cintilante o meu dia estava ganho. Eu me arriscava a trocar olhares com ela, mas de nada adiantava, todo o meu esforço passava desapercebido. De tanto frequentar o restaurante descobri que ela era casada, descobri até seu nome, e o nome que ela tinha combinava perfeitamente com a sua beleza magnifica. Eu a queria, sentia uma atração inexplicavel por ela, sonhava em possuir aquela mulher.
Certo dia ela foi almoçar com seu companheiro, seu marido, o homem que ela escolheu para o todo o sempre. Era um homem alto, feio, sem sal, mas com muito dinheiro. Ela o ignorava, o seu interesse por ele era outro, ele era uma companhia sem presença, uma figura apagada face aquela assassina de corações. Parados numa fila ou sentados frente a frente no almoço não trocavam palavras, não trocavam olhares e nem carinho. Ficavam sentados, comendo, olhando para os lados, cada um procurando uma distração, ou talvez procurando alguem que os fizessem sorrir. Durante semanas presenciei estas cenas inusitadas, e convivendo em uma cidade pequena, sabemos mesmo sem querer de todos os casos e acasos sobre as pessoas. As estradas curtas, a falta de opções os leva para a fofoca, para o mau olhado, para a invenção de boatos. Com o tempo perdi o encanto sobre aquela mulher, ela se esvaiu em mim, o desejo que tinha para com ela se esfarelava em minhas outras paixões sobre o sexo oposto. Ela era apenas mais uma diante das milhares de paixões que já tive.

14/01/2012

Os amigos

Eram três amigos pequenos, garotos, unidos como carne, sua amizade era bela, pura e inocente. Suas brincadeiras varriam noites e dias, até que o chamado dos pais os fazia retornar para o lar. Cada um possuía uma casa diferente. Um era extremamente humilde e simples, os outros dois filhos da chamada classe média. O primeiro não tinha mais pai, ele havia desaparecido a muito tempo, abandonando os filhos pequenos com a pobre mãe doente do coração. Os outros dois amigos possuíam o chamado belo lar, estudavam em bons colégios e tinham uma educação exemplar. No entanto nada separava os três amigos, mesmo a reprovação dos pais, os conselhos morais dos seus tios, nada separava-os do seu amigo mais humilde e pobre. Quando crianças, todos eles tinham belos sonhos, nenhum pingo de ironia fazia com que suas fantasias se desfizessem de seus dizeres. Cada sonho de cada amigo era protegido no segredo de sua fantástica amizade de criança. A beleza daquelas brincadeiras, a pureza de todos os momentos encantava toda a vida dos três amigos. Dos oito anos de idade, até os seus quinze anos, esses amigos trilhavam juntos, em todos os momentos de uma semana, contudo, as atividades escolares, os compromissos familiares, aos poucos, desgastaram todo o convívio. Certas regras fizeram que a pureza se destroçasse em seu oposto maligno, a perversão da guerra tratada como paz, fez com que os belos sonhos, proferidos em frases jogadas as estrelas, fossem atiradas num poço sem fundo, distantes do coração e do espírito daquela amizade que era verdadeira. Os amigos aos poucos cresceram, um estudou fora de sua cidade, outro foi trabalhar mais longe ainda, e o amigo pobre ficou, sustentou os seus outros irmãos, não teve animo e condições para estudar, largou os outros amigos, assim como eles haviam lhe largado. Hoje, distantes, separados por regras absurdas, por classes, por comportamentos dignos ou de baixo teor, eles vivem, e aquele momento mágico de sua infância pura se foi, para muito longe de seus corações, separados novamente, por classes, por dinheiro, por gostos refinados (ou não), e pela sua fé ou descrença nas coisas da vida.